de Ana Hatherly, A casa das Musas, editorial Estampa. Lisboa. 1995.
A arte da escrita, concebida como arte de representação, pode dizer-se que é tão antiga como o homem, pois como pintura de sinais acompanhou-o sempre ou pelo menos desde o momento em que a necessidade de registo de expressão se manifestou.
Todos sabemos que a relação que há entre a escrita e as artes visuais se baseia, acima de tudo, no seu carácter conceptual, na sua capacidade de substituir o real que representam pela representação mental para que remetem. É assim que a imagem e símbolo, som e significado se unem e mutuamente se produzem.
Porém, quando hoje em dia falamos de escrita, quando dizemos que alguém escreve, que é um escritor – e já há muito que tal acontece -, não nos referimos mais ou quase nunca à pintura de sinais que é a escrita manual e nem sequer nos referimos em particular ao método mecânico que a substitui, que é a imprensa.
Hoje em dia, quando falamos de escrita, no contexto da literatura, falamos de texto, dum tipo de composição em que o processo de representação, a sua visualidade, se tornou de tal modo implícito que passou para a região da invisibilidade. O texto, mesmo para o leitor especializado, tornou-se sobretudo o que ele significa, os dados conceptuais da mensagem, nada ou quase nada de como ele se apresenta à leitura.